Discurso de formatura... A realidade esquecida.
No momento da
escolha para orador da turma, alguém teve a brilhante ideia de solicitar aos
formandos uma competição para escolha do nome perfeito. Quem quisesse concorrer
deveria escrever um discurso e apresenta-lo para a turma, oportunizando aos
presentes a escolha coerente das palavras mais bonitas, emocionantes e que
deixassem os convidados “e até algumas pessoas que não gostaria de convidar
nunca” maravilhados com tamanha fluência diccionada. Alguns colegas acharam que
eu deveria participar, agradeço, mas não me sinto confortável diante de alguns
momentos “e a formatura em seus festejos na maioria das vezes é assim” onde somos
muito mais atores para uma prateia exigente, fingindo até mesmo o sorriso para
a foto que deveria eternizar um momento de verdadeira festa em nossas vidas.
Deve ser pelo
meu sangue índio-negro, raízes culturais que me levam a viver intensamente e não
permitem rituais vazios de significados, mas principalmente por entender, na
escolha dos momentos que estariam no meu discurso, fatos de importância mínima para
a comunidade escolar e demais convidados
que estarão presentes no momento de realização do sonho de ter um diploma universitário.
Em um
discurso tão importante para a especialidade
desse dia , não cabe a palavra suor, derramado nas corridas constantes para não
perder muito tempo das aulas, suor derramado de pavor em cada prova final, onde
todo planejamento podia ser jogado ao vento, como morrer na praia “o Fluminense
de vez em quando faz assim” perto da
conquista do campeonato.
Talvez não seja
interessante falar das inúmeras noites
sem dormir, enfrentando nossa inerente dificuldade em realizar todas as
leituras pedidas, e compreender objetivamente na pergunta feita qual seria a
resposta correta. Reconhecer que alguns professores marcaram mais, reconhecendo
nossas dificuldades, descendo do pedestal e tornando-se parceiros em nossas
lutas.
Em um
discurso de formatura do ensino superior
, deve ser cafoníssimo lembrar momentos tristes, deve-se prezar por palavras
complicadas e irreais o bastante para deixar todos os presentes
maravilhados e tendo no rosto aquele
sorriso amarelo de realização intelectual. Deus me livre lembrar o macarrão já
azedo, tornando-se não o melhor dos alimentos, mas o único presente ao fim da aula,
antes do sono, como calmante irrecusável aos pedidos de um estomago vazio. E as
caronas que não apareciam? E os assuntos que surgiam quando as caronas apareciam?
E as mensalidades sempre atrasadas? Entram ou não em um discurso de formatura? As
decepções das notas baixas e a alegria da superação dos problemas. O companheirismo,
a mão amiga nos momentos difíceis. São tantas coisas... Acho falso pensar em um
discurso bonito, onde nossas lutas serão falseadas, ficando no papel palavras
bonitas demais, não condizentes com todas as dificuldades enfrentadas até o
momento de ter nas mãos um diploma. A importância dele, o valor dele, está em
todos os pequenos e grandes esforços que fizemos durante esses anos. Nesse período podemos entender o
quanto somos privilegiados não por ter ganhado da sociedade uma oportunidade,
muito mais por tê-la conquistado. Deixando muito suor pelo caminho, superando
as barreiras que pareciam intransponíveis, recebendo a ajuda de tantos amigos e
nos tornando melhores.
Todas as
nossas alegrias neste momento, possuem razões profundas de estarem satisfeitas.
Sabemos como foi árduo o caminho e compreendemos o quanto ainda iremos lutar para vencermos todas as mazelas dessa vida.
Por todos esses fatores e outros que nem ousei lembrar, não estou disposto a
criar um discurso para extasiar mentes, mas que não chega ao coração de quem
ouve. Muitos não passaram pelos momentos narrados, mas eu sei que a maioria tem
momentos onde a chegada parecia quase impossível de ser conquistada... Mas
chegamos!
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